Por Clarice Ferraz* - No dia 13 de março, o site bloomberg alardeou o fato de diversos países terem atingido a regra de ouro da “grid parity” para a energia fotovoltaica, e o Brasil é um deles. Isso significa que, em muitos casos, para o consumidor final já vale a pena instalar seus painéis fotovoltaicos, e produzir eletricidade para si próprio, em vez de comprar eletricidade de sua distribuidora. A conexão à rede, entretanto, continua sendo fundamental para atender as demandas de alta potência e cumprir a função de bateria para os sistemas individuais conectados.
Fig.1: Países que atingiram a “grid parity” para o solar fotovoltaico:

Fonte: Bloomberg
Sabe-se que a capacidade instalada de solar fotovoltaica no Brasil é irrisória. O que existe, na maioria das vezes, é sua utilização para o atendimento de sistemas isolados, em particular através do programa federal de universalização do acesso à eletricidade, o Luz para Todos. Com a expansão deste último – de acordo com o censo de 2010, ainda existem no Brasil 728.000 habitações sem acesso à eletricidade – o solar fotovoltaico off-grid tem conhecido um importante crescimento. Apesar desse avanço, e do elevado número de conexões, em termos de acréscimo de capacidade instalada representa muito pouco. Em países onde o solar fotovoltaico conheceu importante desenvolvimento, e cuja indústria se desenvolveu, esse se deu com a integração da eletricidade produzida de maneira distribuída e interligada às redes de distribuição.
Apesar de o Brasil ter feito um esforço para incluir novas energias renováveis em seu processo de diversificação de sua matriz elétrica muito pouco foi feito em com relação à produção de eletricidade de origem fotovoltaica. Programas como o Proinfa, que surgiu para estimular o desenvolvimento de novas energias renováveis, excluíram o solar fotovoltaico, à época considerada muito caro, apesar do país possuir enorme potencial fotovoltaico (Fig.2) – o local com o pior grau de irradiação é 40% superior ao melhor da Alemanha. Além disso, o país possuiu uma das mais importantes reservas mundiais de quartzo (SiO2), do qual se obtém o silício, usado na fabricação da maior parte dos painéis atualmente. A indústria nacional domina sua transformação mas o destina à atividade metalúrgica.
Fig. 2: Potencial de irradiação do território brasileiro

Viana et al., Solar Energy 85, 2011, 586-495
Com tantas vantagens é de se estranhar que a indústria fotovoltaica não tenha se desenvolvido no país. Do lado da cadeia de produção o subdesenvolvimento é flagrante. O país só possuiu uma empresa capaz de fabricar painéis fotovoltaicos. A grande maioria das instalações fotovoltaicas do país é realizada com painéis importados.
Em realidade, não são os aspectos técnicos ou econômicos que freiam a disseminação do solar fotovoltaico conectado à rede no Brasil. A maior barreira ao seu desenvolvimento se encontra nas questões institucionais que permeiam suas atividades, como já experimentado em diversos outros momentos do setor elétrico brasileiro. Como se sabe, um mercado só pode se desenvolver se houver investidores interessados em participar de suas atividades. Isso por sua vez, só pode ocorrer uma vez que o marco regulatório estiver definido.
Em 2010, a Aneel realizou a primeira Audiência Pública para tratar da definição das regras de conexão de geração distribuída ao sistema elétrico interligado. A Agência recebeu 577 contribuições, o que revela que há investidores querendo que o mercado seja viabilizado para poderem atuar. Em 2011, foi realizada nova Audiência Pública para tratar da integração do fotovoltaico, em particular, do sistema de compensação de energia elétrica, no qual a energia ativa gerada pelo consumidor “compense” a energia ativa por ele consumida via distribuidora. Dessa vez, foram 477 contribuições. Dois anos depois, apesar do grande interesse dos atores, e do potencial brasileiro de irradiação e de matéria prima, a Resolução Normativa que definirá as “regras do jogo” para a inserção do solar fotovoltaico na matriz elétrica do país ainda não foi publicada. Por hora, ainda não foi definido o ponto de conexão, o sistema de medição ou como será contabilizada a energia ativa que o consumidor, produtor de eletricidade fotovoltaica, injetará na rede elétrica da distribuidora. Sem essas definições, e sem a definição da repartição desses custos e dividendos, o marco regulatório para o solar fotovoltaico segue indefinido.
Como então explicar a conquista da tão almejada paridade anunciado por bloomberg? Infelizmente, as razões não são propriamente atribuídas às qualidades do setor elétrico brasileiro. Em realidade, é mais fácil apresentar preços competitivos para o suprimento de energia alternativo quando os preços da eletricidade fornecida pela rede para o consumidor final são muito elevados. Como se sabe, o solar fotovoltaico é produzido on site dispensando custos de transporte e distribuição, além dos encargos que incidem sobre todas as atividades da indústria elétrica.
Assim, enquanto aguardamos a definição do marco regulatório para a integração da eletricidade de origem fotovoltaica produzida de forma descentralizada, o potencial brasileiro em solar fotovoltaico permanece uma promessa. Sua competitividade on-grid continuará sendo explicada apenas pelo aspecto negativo da eletricidade para o consumidor final no Brasil: seu alto preço.
* Clarice Ferraz é pesquisadora do Grupo de Economia de Energia do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEE/UFRJ). Este artigo foi publicado no Infopetro, blog do GEE/UFRJ




abril 16th, 2012 at 10:05
Esperamos que o governo não atrase ainda mais o nosso desenvolvimento, mas espero muito mais que as empresas que irão oferecer serviços de montagem e fabricação dos painéis estejam preparados para a demanda, caso contrário veremos o mesmo cenário da eólica, vários projetos e obras atrasadas por causa das montadoras e construtoras responsáveis pelas obras.
Deve haver sobretudo um incentivo muito maior do governo, sobre as faculdades para que tenhamos engenheiros e técnicos capacitados em oferecer serviços e estudos de qualidade para o mercado fotovoltaico, chega de importar conhecimento, já passou da hora de investirmos em nós mesmos.
abril 16th, 2012 at 10:11
No momento em que se fala cada vez mais em fontes de energia limpa e renovável é fundamental aproveitar a oportunidade oferecida pela natureza ao Nordeste Brasileiro para produzir energia eólica, solar e biocombustíveis.Precisamos inovar e renovar pela terra, sol e ar.
Com um potencial energético proporcionado por cerca de 300 dias por ano de forte incidência solar, vale reforçar uma estratégia para o uso racional desse imenso reator natural que é o Sol.Precisamos,também,aproveitar o momento e avançar no caminho a favor do vento.Assim como a energia solar a eólica é mais uma alternativa lógica.
PAULO CESAR BASTOS é engenheiro
abril 16th, 2012 at 11:23
Paulo Cesar
Sabes o custo da geração fotovoltaica?
abril 16th, 2012 at 13:33
é importante realçar que energia solar fv, se tiver o mesmo tratamento tributário q foi concedido à energia eólica, já é competitiva para auto-produção para consumidores industriais e comerciais, não só o consumidor residencial. A atitude das autoridades do setor é inexplicável no q diz respeito à energia fv.
abril 16th, 2012 at 14:01
Uma análise econômica clássica não é lógica e adequada para estudar a viabilidade da geração de energia renovável no Nordeste, seja a eólica, solar e/ou biocombustíveis, comparada com as outras formas. A equação precisa ser formulada observando-se diversos fatores como a maximização do desenvolvimento local e a conseqüente minimização do êxodo rural, evitando as contemporâneas tragédias urbanas do desemprego, falta de moradia e violência.
abril 16th, 2012 at 18:34
Rogério, tentarei ser mais objetivo em minha resposta. O custo da geração fotovoltaica irá depender principalmente da disponibilidade da irradiação solar e do custo inicial. Com relação ao primeiro fator, você terá que analisar a sua região e as condições de instalação e chegar em um índice que definirá o desempenho de sua instalação. Será um índice do tipo kWh/kW.ano, que retornará a quantidade de energia gerada anualmente para cada kW instalado nestas condições (lembrando que a cada ano esse valor decresce em ~ 0,5%). Depois você terá que conhecer o custo inicial e de O&M. Basicamente: PV, suportes mecânicos, inversor, materiais elétricos e mão de obra. Pelas minhas pesquisas voce irá desembolsar aproximadamente 8.000 R$/kW (com a sua mão de obra). Estou tentando diminuir estes valores mas está difícil por causa da escala (1,5 kW). Daí é somente fazer as contas para um período de 30 anos, com a troca dos inversores a cada 10 anos (alguns dizem 15). Do ponto de vista do consumidor residencial (lembrando que você terá que incluir nos seus custos o medidor digital, que você paga e fica para a concessionária – quanto incentivo!), que paga algo como 400 R$/MWh, já é possivel fazer as contas para ver se compensa. Agora, para consumidores industriais e comerciais (~ 200 R$/MWh), sem chance, a menos que hajam outros ganhos (marketing, redução de carga) para entrarem na equação.
abril 16th, 2012 at 18:48
E por que energia mais cara vai combater o êxodo rural?
abril 17th, 2012 at 9:01
Ela é mais cara competindo com o mix da rede, que em tempos de reservatórios cheios fica muito barata. Voce sabe quanto custa a energia de Itaipu? Dependendo da região rural, se for muito afastada da conexão com a rede, o PV irá competir com Diesel e neste caso se torna a opção mais barata para se abastecer com eletricidade estas famílias. Uma vez abastecidas é provável que melhore a sua qualidade de vida, mas energia não é a única variável. Deve-se pensar também em apoio técnico, educação, saúde, lazer, e para todos estes a energia estará também contribuindo. É uma equação complexa. Ou não?
abril 17th, 2012 at 10:00
ola Kurt,
gostaria de saber como voce chegou a conclusao que agora o FV ja e competitivo ao nivel industrial. que tarifas voce esta comparando? a competitividade para mim significa um payback de MAXIMO 10 anos, que ja e muito longo para o Brasil. diria que teria que ser menos de 8 anos para ter aceitaçao do mercado.
abril 17th, 2012 at 10:15
Importantes os comentários. Acredito que sempre vale a pena um bom debate, a permuta de conhecimento e opiniões. Não se constrói nada sozinho. Precisamos aproveitar o momento e o bom tempo avançando com energia no caminho do Sol a favor do vento. Valeu.
Urge, no entanto, modificar o panorama ainda do tempo colonial de industrialização predominante no litoral. O Brasil precisa de uma nova vereda do progresso para chegar na estação do sucesso, através de um modelo realista, positivo e viável de interiorização do desenvolvimento.
Viver nas cidades do interior não significa viver apenas da roça, portanto, vale o fomento às outras atividades além das rurais. Cabe, assim, a implantação de sistemas produtivos diversificados . A energia renovável é, também, uma ferramenta de transformação, é uma forma de colocar a ciência, tecnologia e inovação para beneficiar diretamente o cidadão.
abril 24th, 2012 at 11:59
A ANEEL acaba de aprovar a geração alternativa de energia eletrica domestica com possibilidade de de entregar a rede da concessionaria, e sua compensação em desconto na conta de consumo.
Espero que isso seja rapidamente divulgado e que estejam claras a forma de como será feita essa conexão e medição. Infelizmente essa importante decisão veio sem incentivo fiscal.
É extremamente necessário que o governo atraia empresas de pesquisa e fabricação de placas fotovoltaicas para o Brasil, esta será a unica forma de expansão desse tipo de geração e sua redução de custo.
abril 27th, 2012 at 10:10
Realmente. Mesmo antes da publicação já se sabia que não haveria nenhum incentivo, fato que eu considero acertado pois se formos incentivar algo deveríamos incentivar alguma tecnologia que se apresente mais vantajosa para nosso país, o que não é o caso da fotovoltaica neste momento histórico. Além de não incentivar, deve-se ficar atento pois o medidor digtal deverá ser pago pelo consumidor e, agora mais sutil, deve-se ter cuidado no dimensionamento pois caso se gere mais energia que o consumo ninguém será pago por isso, no máximo poderá transferir esse escedente para outra UC de mesmo CPF. Mais ainda com relação à este cuidado: deve-se dimensionar o sistema para gerar no máximo 30 kWh/mês menor que o consumo, pois se sua instalação fotovoltaica gerar a mesma quantidade em um dado mês o consumidor continua pagando o custo de disponibilidade da rede para a concessionária. Nem esse incentivo nos deram.
maio 4th, 2012 at 13:47
Alguém sabe onde podemos encontrar de uma forma resumida o preço da tarifa residencial e também industrial? Obrigado
maio 10th, 2012 at 11:16
Fiz um orçamento ano passado pra "converter" minha residência: R$ 40.000, 00 (fora frete e instalação – triângulo mineiro). Se alguém vai construir eu aconselho o investimento, se não por economia, por ideal e pra não pagar por algo que o Brasil tem tanto potencial para fornecer quase gratuitamente. Enquanto isso seguimos querendo Tchu e gritando gol.
maio 20th, 2012 at 12:15
Se energia solar se paga em 5 anos (Nos EUA) porque as hidro-eletricas já passados 50 anos ainda não se pagaram.
Além de suportar os preços abusivos da energia solar no Brasil, temos que aturar a robalheira nas hidroeletricas.
Mas uma coisa é certa, a desgraça das hidroeletricas será sua propria ganância, pois permitira a competitividade da energia solar mais rapido que em outros paises….
maio 21st, 2012 at 13:59
A maioria já se pagou faz muito tempo. Por isso eu perguntei anteriormente se alguém sabe quanto custa a energia de Itaipu, que gera mais de 90 milhões de MWh/ano e tem apenas custo de O&M (minha aposta é 10 R$/MWh). E falando de roubalheira, tem ainda a transmissão e a distribuição, esta quase que totalmente privatizada e um monopólio natural. Além de uma agência reguladora inerte. Quando começou o processo de desastização (privataria) nos anos 90 já se sabia que as tarifas subiriam em 6 vezes, tudo isso para alimentar os tubarões. Nós entregamos nosso patrimônio, construído com o suor de nossos pais, tios e avós, tudo bem planejado e garantido com contratos. Agora já começar a falar de renovação automática das concessões.
junho 4th, 2012 at 19:43
Ola Leandro…
Eu moro em Uberlândia e hj tive o impeto de procurar por este assunto justamente por achar que é viavel haja vista a enorme abundândia de irradiação solar que temos aqui .
Vc poderia compartilhar como vc chegou a estes custos e informar se vc foi adiante com sua ideia e se realmente compensa ?
junho 10th, 2012 at 21:44
No Brasil ,nada vem por acaso, se não alimentar nossos politicos corruptos.
Terian que ao menos incentivar a geração da energia solar, para que o Brasil tenha crecimento
evoluido para o futuro.
dezembro 11th, 2012 at 8:28
Estamos em dezembro a semana que vem entra em vigor a RN 482 e nao vi nenhuma divulgacao as concessionarias nem respondem queando voce pergunta sobre o assunto. estou tentando montar minha prosuçao propria fiz 3 orcamentos e todos ficaram em 13 mil parece tabelado para 200 KWH por mes.
o problema esta no painel solar de mais de milreais por um de 140 k sendo que me infgormaram se au montar vai custar 300 o que viabilizaria o investimento para minha casa minha vida, mas nao sei ainda montar e nem onde conseguir comprar as celulas fotovoltaics e outros materiais de fonte segura